Projeto Guardiãs das Nascentes

Guardiãs das Nascentes é um projeto fotográfico investigativo que relaciona a imagem da mulher à ideia de preservação ambiental. As personagens nos alertam para a situação crítica do Bioma Cerrado e de suas nascentes, impactados principalmente pelo avanço do agronegócio, que se expande cada vez mais sobre as áreas remanescentes do bioma.

O conceito visual das Guardiãs, personagens guerreiras e defensoras de nossas nascentes, foi inspirado nas histórias em quadrinhos, nos movimentos da arte marcial chinesa Wushu e nas poses da fase pictorialista da fotografia do final do século XIX.

O ensaio fotográfico foi composto por sessões de fotos realizadas em estúdio, em Brasília, e em cachoeiras e nascentes no entorno da capital, em Pirenópolis e na Chapada dos Veadeiros.

Vera Sant representa uma das Guardiãs das Nascentes do Cerrado. Aliás, agora em Agosto se comemora o dia do bioma Cerrado, um dos ecossistemas mais devastado nas últimas 3 décadas no Brasil. Sem qualquer tipo de controle, mesmo porque até hoje não é reconhecido pela Constituição Brasileira como Patrimônio Nacional, o bioma Cerrado é palco de todo o tipo de exploração: vegetal, mineral e humano. Considerado a caixa d’água do Brasil o Cerrado segue sendo lugar preferido para as enormes monoculturas, pois as terras são baratas, o desmatamento não é oneroso (as árvores são mais fáceis de serem derrubadas) e os terrenos são planos facilitando a agricultura mecanizada.
A exposição coletiva segue no Museu da República em Brasilia, até o final de Agosto. Agosto de 2014.

As Guardiãs são entidades espirituais guerreiras, fruto do meu imaginário, que vivem nas nascentes do Cerrado para vigiar e protegê-las.
As nascentes nos garante a vida com a água, assim como nossas mães nos amamentam seu leite para sobrevivermos. As nascentes e o seio materno têm um mesmo propósito; o de nos suprir.
A série “Guardiãs das Nascentes” lança um olhar diferenciado sobre a nudez, sem ênfase para a sexualidade, tentando plantar uma pequena semente de conscientização ambiental, ao usar o Cerrado como cenário nas fotografias.

Imagem captada com câmera nikon com objetiva 28mm. Filme preto e branco (TriX ou PlusX) revelado com D-76 e copiado em papel Kodak N3.

Ao final deste trabalho, pude concluir que o trabalho coletivo e colaborativo é mais gratificante do que o trabalho solitário do artista/fotógrafo. Trabalhar em equipe, em vez de desenvolver uma produção isolada e solitária, incorpora à obra as contribuições de todos os envolvidos ao longo do processo.

Creio que esta tenha sido a reflexão mais profunda desencadeada durante a formação da minha personalidade como artista/fotógrafo.

Pude perceber que cada modelo que participou do projeto Guardiãs das Nascentes imprimiu sua própria personalidade no momento certo. Foi interessante notar as limitações de cada modelo, bem como as minhas próprias dificuldades. Essas dificuldades fazem parte do processo e compõem a obra. São esses ajustes, erros e acertos que transformam o trabalho ao longo de seu desenvolvimento, promovendo seu crescimento e amadurecimento, de modo que cada série realizada com uma modelo se torne um momento distinto e único.

Percebi que as pessoas se mobilizam por diferentes afinidades: umas pelo conceito ambiental presente na proposta; outras pela apreciação plástica e estética da nudez; e outras, ainda, pela vaidade que, creio eu, faz parte da natureza humana.

Pude perceber também como o imaginário masculino continua fascinado pela beleza e pela sensualidade da mulher. No mundo contemporâneo, a fotografia já não representa nenhuma novidade. No entanto, ao apreciar a imagem de uma pessoa despida, a reação de surpresa e encantamento parece ser a mesma de 180 anos atrás, quando as primeiras fotografias de nudez surgiram em Paris.

Para realizar este trabalho, resolvi adotar principalmente a linguagem da fotografia em preto e branco, embora também tenha produzido parte do material em cores. Interpretar o mundo em tons de cinza é o principal desafio da fotografia monocromática. A fotografia em preto e branco faz com que o espectador concentre sua atenção na ideia da imagem, e esse era o meu principal objetivo.

Optei por produzir o trabalho utilizando o processo fotográfico analógico, procurando seguir referências de poses e conceitos naturalistas da fotografia.

Depois de diversas pesquisas sobre o figurino das modelos, optei por utilizar peças de artesanato produzidas por povos indígenas, alguns dos quais vivem no bioma Cerrado. Os elementos escolhidos incluíram arte plumária, cestaria, armas tradicionais, como lanças e tacapes, além de outros adereços confeccionados com fibras vegetais, algodão e sementes.

da esquerda p direita: Célia, Naíla Lilian e Uaira.
Da esquerda p direita: Juliana, Melissa, Vera e Cláudia.

Execução prática das fotos.

A parte prática da captação das imagens se dividiu em duas sessões fotográficas com cada modelo.

  1. Uma primeira sessão de fotos no estúdio, funcionou como um treinamento para a modelo encarnar o personagem e para realizar pesquisa de ângulos e composição. Pude também tirar conclusões com relação à produção, maquiagem e principalmente, aprimorar a direção de cena, a fim de conseguir extrair as expressões e poses que caracterizassem uma verdadeira personagem guerreira.
  2. Uma segunda sessão de fotos em locações externas, no ambiente do Cerrado. Foram escolhidas nascentes no Morro dos Cabeludos, em Pirenópolis e na Chapada dos Veadeiros, ambos em Goiás.

A produção das fotos no estúdio.

A sessão de fotos no estúdio foi muito importante para o desenvolvimento deste trabalho, apesar de nenhuma fotografia dessa etapa ter sido aproveitada para a apresentação final.
É o momento em que estabelecemos uma separação entre a pessoa e o personagem da guerreira.
O objetivo aqui era criar um exercício de construção do personagem Guardiã e transformar isso em poses e expressões.

O ensaio da personagem Guardiã Vera em estúdio foi feito com filme PlusX revelado com D-76 e copiado em papel kodak N3.

A produção das fotos na locação externa.

Sair do estúdio para fotografar em ambientes externos requer muito planejamento. Nenhum equipamento pode ser esquecido, a previsão do tempo tem que ser analisada, o transporte, a alimentação e água são detalhes que devem estar presentes no checklist. Para esse trabalho foi importante a realização do checklist pois as fotos externas foram feitas em locais distantes entre 150 e 270 km de Brasília.
Escolhi o Morro dos Cabeludos, em Pirenópolis, GO, para realizar as fotos com as modelos Vera, Melissa e Célia. É uma região típica de cerrado, com várias formações rochosas compondo um cenário bem característico e com aspecto de paisagem pré-histórica.

Algumas fotos foram feitas no ponto B e outras dentro da mata no ponto A.
Aqui estamos no ponto B. As Guardiãs Melissa e Vera. Fotos feitas com filme negativo PlusX revelado com D-76 e copiado em papel Kodak N3.
Fotografando Guardiã Vera no ponto B.

As primeiras fotografias de nu; relações com a pintura e referências utilizadas no projeto Guardiãs das Nascentes.

Em um primeiro momento, o daguerreótipo, desenvolvido por Louis Daguerre, tornou-se o processo fotográfico de maior difusão. Pela primeira vez, era possível registrar uma imagem positiva diretamente sobre uma placa metálica sensibilizada. Com a aquisição da patente pelo governo francês, em 1839, o processo foi colocado em domínio público, permitindo sua rápida disseminação.

A novidade espalhou-se rapidamente pela Europa e, posteriormente, por outras partes do mundo. Muitos pintores retratistas passaram a atuar também como fotógrafos, adotando o novo processo para a produção de retratos. Entre essas imagens, destacam-se inúmeros estudos de nu, cujas poses, composições e recursos cênicos revelam uma forte influência da tradição pictórica.

Para esses primeiros fotógrafos, recorrer às referências da pintura clássica era uma maneira de conferir legitimidade artística à fotografia, apropriando-se do prestígio que a representação do nu já havia conquistado ao longo de séculos de história da arte. Essa influência pode ser observada com clareza na fotografia de Auguste Belloc (fig. 3), que apresenta notável semelhança com a pintura Vênus com Organista e Cupido, de Ticiano Vecellio (fig. 4). A aproximação não se limita à pose da modelo, mas se estende também aos elementos cenográficos, como o sofá no estilo récamier, aos tecidos cuidadosamente dispostos e à própria construção da cena, evidenciando o diálogo entre a fotografia nascente e a tradição da pintura renascentista.

Figura 3. Auguste Belloc, 1856. Influência da pintura nas primeiras fotografias. A pose da modelo, o cenário e o ponto de vista são remanescentes das pinturas da época. (Michael Busselle, Como fotografar nus, pag. 8).
Figura 4. Venus com organista e cupido, Ticiano Vecellio, 1548, óleo sobre tela, 148x217cm, Museu do Prado, Madrid.

Outra característica peculiar dessa fase pictórica e impessoal de fotografar era o olhar distante da modelo, como se estivesse perdida em seus pensamentos. A Venus de Botticeli (fig.5) tem esse olhar, encontrado também na foto de Rejlander (fig. 6). Uma tentativa em buscar esses olhares perdidos acabou influenciando as fotografias desse trabalho, como nos olhares das modelos Melissa e Juliana (fig.7).

Figura 5. Sandro Botticelli, O Nascimento de Venus, c. 1487; 172,5×278,5cm; têmpera sobre tela; Galeria degli Uffizi, Frorença (detalhe do olhar perdido).
Figura 6. Oscar Gustav Rejlander, inglês, 1855.

Aqui imprimindo esse olhar nas fotos da Guardiã Uaira e Naíla.

Exposição realizada na Galeria de Arte da antiga Escola (atual Faculdade) de Artes Dulcina de Moraes.

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